Cromatismo Solar – Maiana Nussbacher
Ao olhar pela janela do carro em uma tarde chuvosa em São Paulo, vejo a cidade derreter diante dos meus olhos. Os verdes e vermelhos reluzentes dos faróis se cortam ao meio, enquanto o cinza da cidade se confunde com os tons azuis e verdes das placas e motos. Se viajo pelo mundo, cada paisagem desaparece com a velocidade com que passo por ela. Nossa vida é composta por esse movimento constante, onde as memórias, como borrões, se dissolvem no fundo da mente. É a partir desse anseio nostálgico por absorver o mundo e suas vivências que Maiana Nussbacher dá início à sua exposição Cromatismo Solar.
Seu trabalho é fortemente marcado pelo uso do círculo como objeto de pesquisa, uma forma que transcende a noção de eternidade e continuidade, associando-se também ao movimento, à expansão e ao tempo. O círculo, presente em diversas religiões e sistemas espirituais, simboliza a totalidade, a harmonia e a união dos elementos. Ele é um símbolo de perfeição espiritual e do universo em constante transformação. Nussbacher propõe que, dentro de cada esfera, existe uma memória encapsulada, e ao nos aproximarmos de suas obras, podemos nos deparar com essas cenas. Suas combinações cromáticas recriam a paleta de cores vivida em momentos específicos. Se a cor é, de fato, emoção, sua fusão funciona como um portal para outras vidas e experiências.
Em Cromatismo Solar, Nussbacher convida o visitante a adentrar seu universo visual, numa sala linearmente segmentada que divide os momentos do amanhecer, meio-dia e anoitecer, respectivamente. Embora essa divisão remeta à passagem cronológica de um dia, as obras também sugerem o fluxo de uma semana, um mês, um ano ou até mesmo uma vida pessoal. As três telas maiores seguem um degradê formal de cores, reconstruindo a tríade de um dia, mas, ao se deparar com um jogo de telas menores, o espectador é levado a um subconsciente coletivo, onde memórias específicas emergem, e somos transportados para momentos singulares, como uma tarde chuvosa ou uma manhã de carnaval.
Pela primeira vez, a artista apresenta trabalhos que combinam realidade aumentada e impressão lenticular. Ao desafiar nossa capacidade de abstração de memórias e movimento, Nussbacher sugere que, em nossas rotinas diárias, o mundo se agita junto. Usando tanto novas tecnologias quanto técnicas de impressão, as obras da artista transformam o cotidiano em algo simultaneamente belo e efêmero. Ao expandir a percepção do espectador para uma nova dimensão, essas obras fundem movimento, tempo e cor. A realidade aumentada reinventa a memória, antes fixa e imutável, enquanto a impressão lenticular faz com que as cores se desloquem, dançando com a posição do observador, ampliando os limites da experiência visual e sensorial.
Neste espaço de fusão entre o temporário e o eterno, Cromatismo Solar revela a poesia das cores e o eterno movimento do tempo, encapsulado em cada memória, em cada sensação. Ao atravessar as esferas de Nussbacher, somos transportados para um lugar onde o passado e o futuro se entrelaçam em um ciclo contínuo de emoção e percepção. Não se trata apenas de uma representação do mundo, mas de uma imersão nas nossas próprias experiências, eternamente renovadas, como o sol que se põe e se levanta, dia após dia.
Lara Maia
