:: Gesto de Pintar

Meus trabalhos atuais são o resultado de uma superposição de camadas de tinta sobre uma tela esticada em uma mesa, na qual deposito a tinta que depois é espalhada com a utilização de um pincel e espátula. O resultado é uma superfície lisa e não uniforme. Depois da primeira camada de tinta, eu coloco outras cores misturando-as sobre a tela já quase seca.

As junções das camadas de tinta sobre a tela formam desenhos que eu acompanho com o pincel ou com a espátula sobrepondo imagens e formando novas. É como se situações novas fossem criadas. A partir de um mero acaso, percursos são corrigidos, problemas são resolvidos enfim, fico mais introspectiva. 



Pollock uma vez disse:”Quando estou pintando, não estou atento ao que estou fazendo. É só depois de um tempo que me acostumo, período este que vejo o que fiz. Eu não tenho medo de fazer mudanças, destruir a imagem, etc, porque a pintura tem vida própria. Eu tento deixá-la vir à tona. E só quando eu perco contato com a pintura é que ela vira uma bagunça. Por outro lado existe pura harmonia, um fácil dar e receber, e a pintura surge bem.”


A técnica de trabalho de Pollock me influenciou bastante porque passeio pela tela para vê-la sobre diferentes ângulos e aspectos e não só horizontalmente como na pintura de cavalete. Elementos radicais como o abandono da pintura de cavalete e a ausência da pintura tradicional são fortes aspectos da minha pintura da mesma maneira que algumas características do Expressionismo Abstrato Americano.



Novamente segundo Pollock, “O credo da sociedade puritana dos Estados Unidos diz: existe-se para fazer. O contrário é que é verdadeiro: faz-se para existir, é preciso fazer a existência. Antes da ação, não há nada: não um sujeito e um objeto, não um espaço onde se mova, um tempo em que se dure. Pollock parte realmente do zero, do pingo de tinta que deixa cair na tela e essa técnica deixa certa margem ao acaso: sem acaso, não há existência. O acaso é liberdade em relação às leis da lógica, porém é também a condição de necessidade devido à qual se enfrentam a cada momento, na vida, situações imprevistas. A salvação não reside na razão que faz projetos, mas na capacidade de viver com lucidez a casualidade dos acontecimentos. Tudo se resume a encontrar o ritmo próprio e não perdê-lo, aconteça o que acontecer.”

Voltando ao meu trabalho, as manchas que aparecem com as minhas primeiras pinceladas ditam o que será colocado e trabalhado secundariamente. O acaso, devido ao acúmulo de água e de tinta, acaba interferindo no total da obra desprezando o que a razão faria, já que a desordem ordena o que será feito posteriormente.
Os gestos que faço em cima da tela, seja de passar o pincel ora violentamente ora com pouco impacto, seja as espatuladas que dou na espessa massa de tinta e as voltas que dou pela tela, tornam-se uma dança que é o próprio gesto de pintar.

Gosto de me expressar sobre a tela, colocando gestos e movimentos diferentes em cada pincelada. No início pintava no mesmo estilo do "action painting" derramando tinta sobre a tela e ordenando-a exatamente onde queria. Cheguei a fazer telas com um pouco mais de textura mas continuava com o "dripping", que é esta técnica de despejar tinta sobre a tela. Mas uma nova onda de energia começou a aparecer em meu trabalho, algo que fez surgir minha característica própria. Com isso as pinceladas voltaram a fazer parte do contexto pintado, ora através de uma textura feita com gesso acrílico e areia, ora com muita tinta depositada sobre a tela.

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