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Autobiografia
Hoje, antes de pintar, mil coisas passam pela
minha mente, mas parece que o meu corpo fala mais
alto. E a dança gestual influencia as cores e a
luz que vão aparecer na obra. Imagens do dia a
dia, problemas resolvidos ou não resolvidos,
tudo leva a uma pintura com características próprias.
E depois de tudo isso, eu sinceramente não sei
como tudo começou, digo, não sei repetir o que
acabara de ser feito.
O sentimento implícito em cada gesto ao pintar
muda radicalmente depois de um tempo. Assim, uma
obra nunca, e digo isso com toda certeza, será
igual ou parecida com outra.
Um outro artista que olho bastante, mas sei que
é bem diferente dos meus trabalhos é Marc
Chagall 10. Ele com toda a sua experiência
conseguiu remeter uma idéia de que a questão do
artista é dar química entre a obra de arte e o
espectador. É dar um sentido maior a cada
trabalho, dependendo de quem o ver.
A química é a capacidade de promover a ligação
entre as coisas. É o elo do espectador com a
obra em si.
A palavra química está sendo empregada como uma
gíria, já que seu significado é o mais diverso
possível. Entendo essa química como uma
eletricidade, uma empatia com o espectador ou
mesmo como uma transmissão bem feita de idéias
do artista para com o receptor. E é ai que a
obra está completa.
No começo pensava que a questão do artista era
resolver problemas pessoais, e que as diversas técnicas
utilizadas vinham da introspecção da vida. Mas
percebi ser muito mais do que isso. Motivando-me
a pintar cada vez mais.
Descobrir o que poderá surgir de uma tela branca
me instiga a investigar mais a fundo meus
sentimentos e saber, porque, no final de tudo, são
eles que expresso. Entender a química que uma
obra minha poderá agir em uma outra pessoa é
uma satisfação maior do que eu posso mensurar.
Se alguém me perguntar o que pintei, questiono a
esta pessoa o que ela está vendo. E isso mexe
com os sentimentos alheios também. Assim através
de minhas pinturas participo um pouco da vida de
quem as vê e talvez até faça alguma diferença
para elas.
Notas
1 -Jackson Pollock ( 1912-1956) passou a infância
em Wyoming e a juventude em Los Angeles e no
Arizona. Aos 17 anos, já com boa experiência de
pintor, veio para Nova York, onde estudou com
Thomas Hart Benton na Art Students´League, de
quem recebeu grande influência. Esteve na WPA e
se relacionou com os pintores de Nova York. Sua
obra foi olhada com especial interesse pelos
surrealistas, que o convidaram para apresentar-se
com eles na International Surrealist Exhibition
de 1942. Em 1943, Peggy Guggenheim permitiu-lhe
fazer, em sua Art of this Century Gallery, sua
primeira exposição individual. Suas relações
mais próximas eram principalmente com os
artistas que entraram para o círculo de
surrealistas, e foi graças a eles que pôde
conhecer Matta, cuja obra teve especial significação
em sua carreira. Entretanto, por mais
influenciado que fosse pelos surrealistas ou pelo
vigoroso estilo expressionista de Benton, Pollock
nunca chegou a entrar a fundo nas discussões e
controvérsias a que se entregava boa parte de
seus colegas. Sempre conservou o seu amor pelas
vastas planícies do oeste, que gostava de
atravessar num velho carro, tal como fazia nos
tempos de juventude.
cf. BROWNING CHIPP, Hershel. Teorias da arte
moderna. São Paulo: Martins Fontes, qqqqq1988.p.521.
2 - Jackson Pollock fez uma declaração
respondendo a um questionário publicado em Arts
and Architecture em fevereiro de 1944 que vai ao
encontro do que eu penso e gostaria de reproduzí-la
abaixo.
"Aceito o fato de que a pintura importante
dos últimos cem anos foi feita na França. Os
pintores americanos em geral não entenderam a
pintura moderna do começo ao fim. (O único
mestre americano que me interessa é Ryder).
Assim, o fato de os bons modernos europeus
estarem aqui agora é muito importante, pois
trazem consigo o entendimento dos problemas da
pintura moderna. Estou particularmente
impressionado com o seu conceito da fonte da arte
como sendo Inconsciente*. Essa idéia me
interessa mais do que esses pintores em si, pois
os dois artistas que mais admiro, Picasso e Miró,
ainda estão no exterior... ."
"A idéia de uma pintura americana isolada,
tão popular nos Estados Unidos na década de 30,
parece-me absurda, como absurda seria a idéia de
criar uma matemática ou uma física puramente
americana... E, num outro sentido, o problema não
existe; ou, se existisse, se resolveria por si
mesmo. Um americano é um americano e sua pintura
se qualificaria naturalmente a partir desse fato,
quer ele o deseje, quer não. Mas os problemas básicos
da pintura contemporânea são independentes de
qualquer país."
* (Na época Pollock estava próximo dos
surrealistas. Havia sido convidado a expor suas
obras junto com eles na Exposição Surrealista
Internacional de Nova York, em 1942, e sua exposição
individual na Galeria "Art of this Century",
de Peggy Guggenheim, em 1943, recebeu considerável
atenção dos surrealistas.)
Idem,p.554.
3 - Segundo Argan:
"O credo da sociedade puritana dos Estados
Unidos diz: existe-se para fazer. O contrário é
que é verdadeiro: faz-se para existir, é
preciso fazer a existência. Antes da ação, não
há nada: não um sujeito e um objeto, não um
espaço onde se mova, um tempo em que se dure.
Pollock parte realmente do zero, do pingo de
tinta que deixa cair na tela e essa técnica
deixa certa margem ao acaso: sem acaso, não há
existência. O acaso é liberdade em relação às
leis da lógica, porém é também a condição
de necessidade devido à qual se enfrentam a cada
momento, na vida, situações imprevistas. A
salvação não reside na razão que faz
projetos, mas na capacidade de viver com lucidez
a casualidade dos acontecimentos. Tudo se resume
a encontrar o ritmo próprio e não perdê-lo,
aconteça o que acontecer."
CARLO ARGAN, Giulio. Arte moderna.5.ed.Trad.
Denise Bottmann e Federico Carotti. wwSão Paulo:
Companhia das letras, 1992.p.531-532.
4 - Jackson Pollock fez uma outra declaração no
inverno de 1947/48 ao excerto de "My
Painting" em Possibilities:
"Minha pintura não vem do cavalete.
Dificilmente estendo minha tela antes de pintar.
Prefiro abri-la numa parede ou no chão. Preciso
da resistência de uma superfície dura. Sobre o
chão me sinto mais à vontade. Sinto-me mais próximo,
mais parte da pintura, já que dessa maneira
posso caminhar à volta dela, trabalhar dos
quatro lados e estar literalmente na pintura.
Esse método assemelha-se ao método dos pintores
de areia índios do Oeste.
Continuo a me afastar ainda mais dos instrumentos
habituais do pintor, como o cavalete, a paleta,
os pincéis, etc. Prefiro bastões, colheres de
pedreiro, facas, e espalhar tinta fluída ou um
pesado empaste feito de areia, vidro moído e
mais outras matérias estranhas.
Quando estou no meu quadro, não tenho consciência
do que estou fazendo. Só depois de uma espécie
de período de conhecimento é que vejo o que
estive fazendo. Não tenho medo de fazer modificações,
de destruir a imagem, etc. , porque o quadro tem
uma vida própria. Procuro deixar que esse mistério
se revele. Só quando perco contato com o quadro
é que o resultado é confuso. Quando isso não
acontece, há uma harmonia pura, um dar e tomar
livre, e o quadro sai bom."
BROWNING CHIPP, Hershel. Op.cit.p.554.
5 - Pollock uma vez disse:
"Quando estou pintando, não estou atento ao
que estou fazendo. É só depois de um tempo que
me acostumo, período este que vejo o que fiz. Eu
não tenho medo de fazer mudanças, destruir a
imagem, etc, porque a pintura tem vida própria.
Eu tento deixá-la vir à tona. E só quando eu
perco contato com a pintura é que ela vira uma
bagunça. Por outro lado existe pura harmonia, um
fácil dar e receber, e a pintura surge bem."
FRANK, Elizabeth. Jackson Pollock, Modern Masters.
New York: Abbeville Press, ws1945.p.327.
6 - Outra declaração deste artista americano
que gostaria de reproduzir foi feita em 1951 para
o filme Jackson Pollock (1951), de Hans Namuth e
Paul Falkenberg :
"Não trabalho a partir de desenhos ou esboços
em cores. Minha pintura é direta.
( ...) O método de pintar é o resultado natural
de uma necessidade. Quero expressar meus
sentimentos, e não ilustrá-los. A técnica é
apenas um meio de chegar a uma declaração.
Quando estou pintando, tenho uma idéia geral do
que estou fazendo. Posso controlar o fluxo da
pintura: não há acidentes, assim como não há
começo nem fim (...)."
BROWNING CHIPP, Hershel. Op.cit.p.554.
7 - Action Painting- Havia na pintura gestual (que
Harold Rosenberg chamou de action painting) o
desejo de um corpo-a-corpo com a pintura, de um
ato não-reflexivo, de um engajamento total,
atitude que justifica que esses pintores tenham
se desviado do cubismo para ultrapassá-lo,
julgando que seu principal objetivo era a fabricação
do quadro. O gesto painterly ( pictural) parecia-lhes
não apenas mais autêntico, mais imediato,
jogando sobre superfícies de escala cada vez
maior, unificando e desierarquizando essa superfície:
essa pintura tomava o pintor, absorvia-o, e seu
ato se tornava o motor, o próprio movimento de
tal absorção.
BONFAND, Alain. A arte abstrata. 2 ed. Trad.
Denise P. Lotito. Campinas, SP: Papirus, zzz1996.
p.118. (Série Ofício de Arte e Forma).
8 - Mark Rothko disse essa declaração em uma
matéria denominada"Os românticos foram
instigados" em 1947.
BROWNING CHIPP, Hershel. Op.cit.p.556.
9 - Segundo Clement Greenberg:
"A pintura se aproxima da condição da música,
que, segundo Aristóteles, é o mais direto e
portanto o mais subjetivo meio de expressão,
tendo pouquíssimo a ver com a representação da
realidade exterior. O ganho que ajuda a
neutralizar a perda acarretada pela restrição
da pintura e da escultura ao subjetivo reside na
necessidade em que se vê a pintura de se tornar,
em compensação, ainda mais sensível, sutil e
variada e, ao mesmo tempo, mais disciplinada e
objetivada por seu meio físico.
Nenhum imperativo categórico obriga a arte a
corresponder ponto por ponto as tendências
principais de sua época. Os artistas farão tudo
o que puderem a partir disso, e tudo o que
puderem fazer não está determinado de antemão.
Boas paisagens, naturezas-mortas e torsos
continuarão a ser produzidos. Parece-me contudo-
e a conclusão é imposta pela observação não
pela preferência-, que a arte pictórica mais
ambiciosa e vigorosa destes tempos é abstrata ou
segue nessa direção."
FERREIRA, Glória, COTRIM DE MELLO, Cecília( Org.).
Clement greenberg e o debate wucrítico. Trad.
Maria Luiza X. de A.Borges. 2.ed. Rio de Janeiro:
Funarte Jorge Zahar, aa1997. p. 65-66.
10 - Chagall disse:
" (...) Eu consigo ver se uma pessoa nasceu
ou não com voz. Não existe o profissionalismo
em arte. O Dadá não me diz grande coisa, mas
Kurt Schwitters fez obras maravilhosas (...).
(...) Naquele momento quase ninguém consegue ver
direito as coisas e as diferenças sutis entre as
obras. Nosso olhar está desregulado. A química
é o modo como pintou, construiu as coisas que vão
dar em uma clarividência, uma química da arte
com o espectador(...)".
SCHNEIDER, Pierre. Les dialogues du Louvre. By
spadem pour les oeuvres de Bram Van qqVelde.
Paris: Adam Biro, 1991.
Bibliografia:
-CARLO ARGAN, Giulio. Arte moderna.5.ed.Trad.
Denise Bottmann e Federico Carotti. São wwtPaulo:
Companhia das letras, 1992.
-FERREIRA, Glória, COTRIM DE MELLO, Cecília(
Org.). Clement greenberg e o debate wwcrítico.
Trad. Maria Luiza X. de A.Borges. 2.ed. Rio de
Janeiro: Funarte Jorge Zahar ww1997.
-CASTLEMAN, Riva. Jasper Johns, A paint
retrospective. The Museum of Modern Art. wwwNew
York: Distributes by New York Graphic Society
Books/ Little Brown and wwrCompany, Boston, 1986.
-BONFAND, Alain. A arte abstrata. 2 ed. Trad.
Denise P. Lotito. Campinas, SP: Papirus, wwy1996.(Série
Ofício de Arte e Forma).
-S/A.O livro da arte moderna, 1996. Trad. Mônica
Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
-BROWNING CHIPP, Hershel. Teorias da arte moderna:H.B.Chipp.
Trad. Waltensir Dutra... wwet al.2.ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1988.
-HAIA, Neaulme. La font de Saint Yenne, réflexions
sur quelques causes de l'état présent wwrde la
peinture en France, avec un examen des principaux
ouvrages exposés au Louvre wwvle mois d'août
1746. Trad. Magnólia Costa. [mimeo.], 1747.
-ASHTON, Dore. Modern American Painting. A Mentor
Unesco Art Book. New York and qqqToronto: The New
American Library, by arrangement with Unesco, [1991?].
-SCHNEIDER, Pierre. Les dialogues du Louvre. By
spadem pour les oeuvres de Bram Van wwVelde.
Paris: Adam Biro, 1991.
-FRANK, Elizabeth. Jackson Pollock, Modern
Masters. New York: Abbeville Press, ww1945.
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