Home
Autobiografia
Quem é a artista
Frases Marcantes
Fale com a artista
Obras
Novidades












"Para mim, a questão do artista é resolver problemas pessoais, e as diversas técnicas utilizadas vêm da introspecção da vida.”

Maiana Nussbacher





 





:: Autobiografia 

Fundação Armando Álvares Penteado
Faculdade de Artes Plásticas
TGI
Orientador - Paulo Pasta

Junho de 2003

"O que caracteriza um artista é ele olhar para dentro de si mesmo. Toda experiência em arte é um experimentar-se, a experiência de si mesmo, é uma pesquisa em você mesmo. Você não pode fazer experiências com os outros. Este silêncio do olhar para dentro à procura da origem das coisas é que é o grande problema da arte. Procurando a origem você fica original e não querendo fazer uma coisa diferente. É por isso que eu acho que criar está junto com viver, que arte e vida são a mesma coisa." 
Amílcar de Castro 

"A ignorância é filha da preguiça e companheira preferida da mediocridade. Inimiga da evolução, ela limita os talentos e deixa tranqüilamente a glória da invenção para os rivais laboriosos, contentando-se em rastejar obscuramente na multidão de copistas de pensamentos alheios, que se assemelham àqueles animais estúpidos que não ousam desviar-se das pegadas deixadas pelos que os precederam." 

La Font de Saint Yenne, Réflexions sur quelques causes de l'état présent de la peinture en France, avec un examen des principaux ouvrages exposés au Louvre le mois d'août 1746, Haia, Neaulme, 1747.{Tradução de Magnólia Costa].


Sempre gostei muito do meio da arte. Visitava exposições e tentava entender o que se passava na cabeça dos grandes mestres ao produzirem obras tão grandiosas. 

Logo que completei o colegial não tive coragem de fazer uma faculdade de artes, pois havia da minha parte uma certa restrição quanto ao mercado de trabalho. Afinal, do que daria para viver um artista recém formado?
Resolvi fazer administração, uma faculdade que me auxiliaria para a toda a vida. Foi muito interessante! 

Mas o dia a dia e a vida em escritório fechado, me fizeram perceber que o meu caminho era bem diferente daquele traçado por este aspecto prático. A vontade de fazer e expressar o que eu bem entendesse, levou-me a um outro caminho. Voltar à faculdade e recomeçar, poder, enfim, me expressar com mais facilidade. Desta vez, com uma bagagem enorme de conhecimento de mercado, marketing e muitos outros meios.

Através do Marketing entrei em contato com as mídias mais utilizadas para expressar idéias. Aprendi a pensar em como chamar a atenção do meu público alvo. Além de como alcançar racionalmente meus objetivos através de composição, jogo de luzes e de cor. Só que tudo isso me pareceu um pouco frio, já que a mente humana é formada por sentidos e a maior parte deles é aguçado através do emocional, que para mim estava um pouco esquecido.

Estudar obras de arte, expressões de outros artistas que captam nossa atenção e compreender um pouco o mundo de pensadores de arte e de artistas que com seus gestos mudaram a compreensão dos acontecimentos eram o que me motivava a enfrentar novamente uma faculdade.

Atuar em um ambiente cheio de pessoas marcantes com idéias diversas é uma satisfação para mim, que queria conhecer um pouco mais do mundo sensível.

Um artista que me influenciou bastante no início de minhas obras foi Jackson Pollock.¹ 

É interessante ressaltar que logo no começo, minhas pinturas tinham na aparência algo das de Pollock, sendo que eu ainda não o conhecia. Comecei a estudá-lo um pouco mais a fundo e me interessei pelas suas pinturas, porque a exemplo dele, arte contemporânea é arte sem fronteiras. 

Acredito sofrer grandes influências da pintura de outras épocas. Eu faço pesquisas que me auxiliam na elaboração de meus trabalhos. E através da globalização das informações tudo o que está sendo realizado atualmente não tem como escapar do assédio do conhecimento e das experiências de outros artistas. Quando estou pintando, imagens e cenas do que vi passam por minha memória, fazendo com que muitas vezes, o percurso que tracei seja desorientado e novos gestos passam a fazer parte do contexto a ser pintado. Além disso, ficou muito fácil ver exposições ao redor do mundo através da internet e da televisão a cabo. 
A qualquer hora do dia, podemos fazer uma grande pesquisa sobre um artista e suas obras na internet, sem termos que sair de casa. Então qualquer pessoa atual engajada nas artes tem as mesmas facilidades e portanto as mesmas dificuldades. É claro que a geografia pode facilitar ou dificultar cada um, mas o conteúdo e as informações são as mesmas, só é necessário procurar, e já existem todas essas possibilidades e facilidades advindas dos meios de comunicação, mesmo sabendo que nada substitui o contato com a obra original. Mas eu me pergunto se só isso é suficiente, já que arte não é informação, mas enfim, nada substitui o trabalho árduo, o conhecimento e a obra original.

A técnica de trabalho de Pollock me influenciou bastante também, porque todo o meu corpo está em processo quando estou pintando, passeio pela tela para vê-la sobre diferentes ângulos e aspectos.

Atitudes como o abandono da pintura de cavalete e de áreas construídas e preenchidas pelo pincel são fortes aspectos do meu agir.

É muito interessante que em minhas obras, atuo de maneira inconsciente e não sei como vai ser o resultado final. Entro em sintonia com o que estou elaborando sem ver o todo, é como se eu fosse parte da obra. E só depois é que visualizo a harmonia do que pintei.

Eu comecei a sentir necessidade de trazer mais vida á tinta. Passei a misturar coisas na tela, utilizar materiais alternativos. E por mais que eu estivesse familiarizada com este pintor, ainda não conhecia esta fase dele. 

As junções das camadas de tinta sobre a tela formam desenhos que eu acompanho com o pincel ou com a espátula, com isso sobreponho imagens modificando-as. É como se situações novas fossem criadas. A partir de um mero acaso, percursos são corrigidos, problemas são resolvidos enfim, fico mais introspectiva. 

Quando pinto, sinto uma necessidade de expressar meus sentimentos. Caso esteja irritada com alguma coisa, a tela parece absorver, captar esses sentimentos e transmiti-los através dos meus gestos para o espectador.

As manchas que aparecem com as minhas primeiras pinceladas ditam o que será colocado e manejado secundariamente. O acaso acaba se transformando em um problema que resolvo ao longo da obra. 
As voltas que dou e as atitudes que faço em cima da tela tornam-se uma dança que é o próprio gesto de pintar. Gosto de me expressar sobre ela, colocando impressões e movimentos diferentes em cada pincelada. Mas uma nova onda de energia começou a aparecer em meu trabalho, algo que fez emergir uma característica própria. Com isso a utilização do pincel voltou a fazer parte do contexto pintado, ora através de uma textura feita com gesso acrílico e areia, ora com muita tinta depositada sobre a tela.
No começo meus gestos abrangiam mais do que a tela. Só que não era bem isso o que eu queria fazer, era só uma vontade de brincar com a tinta e com o tecido esticado. A dança ao redor da tela, e os pingos de tinta que espalhava sobre ela caíam livremente e a inclinação do terreno é que ditava como tudo se espalharia.

Depois de um tempo senti necessidade de ter um contato maior com a obra. Comecei a colocar minhas mãos na tinta para conseguir controlar mais o seu efeito. O pincel e a espátula passaram a me auxiliar, mas o acabamento final passou a ser extremamente pessoal e íntimo. Meu real contato com a obra.

Um sentimento de ordenar e controlar passou a influenciar o meu trabalho. Os gestos que faço ao redor do tecido esticado, muitas vezes, repetem a dança do "action painting"7, mas no final tudo fica composto de forma ordenada e organizada sobre a tela. 

Para Pollock tudo fazia parte da obra. Seus gestos e movimentos abrangiam a tela e o próprio espaço de pintar.

Comecei a me soltar mais nos meus trabalhos e pensava que estava desfazendo a pintura, mas só depois de muito refletir sobre isso, descobri que é a junção da expressão dos meus sentimentos com os meus conhecimentos. Tento resolver problemas que imagino sobre a tela e através da composição das tintas e da massa espessa que sobreponho, coordeno-me para ter um começo, um meio e um fim.

As divisões observadas em algumas das minhas obras são problemas colocados para fazerem o espectador refletir sobre o espaço pintado. Inicialmente pensei em dar a idéia de vários pequenos quadros ligados uns aos outros, formando uma composição dependente. Mas depois percebi que as linhas retas e os ângulos formados por si só faziam o conteúdo interessante. Necessitava somente um pouco de imaginação e harmonia no contexto a ser pintado.

Refletindo sobre a revelação que o quadro deve ser depois de acabado, lembrei-me de Mark Rothko, um artista de natureza completamente diferente de Jackson Pollock. Suas necessidades e expressões são manifestadas de modo mais diverso, mais refletivo, menos gestual, mais introspectivo e portanto muito diferente do meu horizonte expressivo. Ele disse algo que eu acho ter haver comigo e com qualquer artista independente de seu modo de agir e de pensar.

"(...)A mais importante ferramenta que o artista cria com a prática constante é a fé na sua capacidade de produzir milagres quando estes se fazem necessários. Os quadros devem ser milagrosos: no instante em que um deles é concluído, a intimidade entre a criação e o criador termina. Ele passa a ser um estranho. O quadro deve ser, para ele, tal como é para qualquer outra pessoa que o vê mais tarde, uma revelação, uma solução inesperada e sem precedentes de uma necessidade eternamente familiar."
 
Quando finalizo uma obra e olho para ela, simplesmente não sei como a fiz, mas está lá. Parece que o meu corpo foi uma mera ferramenta para ela nascer. Sinto uma sensação esquisita de não saber como aconteceu. 
Não sei se vou continuar com este tipo de pintura, mas no momento é aqui que estou.

No início quando comecei a prestar atenção nas obras dos grandes pintores achava que somente as figurativas eram boas e desprezava as abstratas. Depois de muito refletir, percebi que as primeiras começaram a ficar tão óbvias a meu ver que me chateavam. Descobri o interessante lado da pintura abstrata. Em muitas delas, a atenção desprendida é enorme e na medida que tentamos entendê-las, a complexidade aumenta.

Logo no início do meu curso na FAAP, a minha primeira intenção era a de saber desenhar até tão bem quanto os grandes mestres. Mas com o passar do tempo, eu não compreendia porque não conseguia prender atenção nas perspectivas, desenhos do corpo humano e paleta de cores. Ficava com sono e só tinha vontade de expressar na tela minhas emoções e colocar em prática meus conhecimentos de pintura. Isso foi algo que só percebi quase no final da faculdade.

Culpava-me esta incapacidade de lidar com o desenho em si. Mas o desejo de trabalhar com as tintas predominava, e a ansiedade gerada fazia com que as expressões feitas na tela fossem bem diferentes das vontades iniciais ligadas aos feitos dos grandes mestres.
.
Próxima Página

 

    © Maiana Nussbacher - Todos os direitos reservados.
A reprodução total ou parcial do conteúdo deste site é proibido sem a autorização.